WEBCAM:Conheça a vida secreta de quem trabalha no “Uber do pornô”

Por Edmilson Pereira - em 1 mês atrás 361

Todos os dias, milhões de brasileiros se conectam à internet para encontrar pessoas que, do outro lado da tela, estão dispostas a se exibir sexualmente ao vivo por meio de webcams.

São trabalhadores e consumidores do camming, um ramo do mercado do sexo relativamente recente no Brasil, diferente de outros países, como na Europa e os Estados Unidos, onde a tendência é mais consolidada.

Por aqui, o protagonista do segmento é o Câmera Privê, conhecido também como CP, um site lançado em 2013 e que se apresenta com a frase “Sexo ao vivo na webcam”.

O site, o maior da América Latina na transmissão de conteúdo erótico ao vivo, apresenta em sua tela inicial fotos de seus modelos registrados — mulheres, homens e trans se exibindo em poses provocativas, às vezes também em casais e grupos.

Os mais ativos e disponíveis conseguem uma posição mais privilegiada, no topo do site. E a competição é grande: o CP conta com aproximadamente 18 mil modelos, dos quais 4 mil estão ativos, ou seja, fazem shows rotineiramente.

Mas além de exibir seus corpos, cammers fazem questão de apresentar em seus perfis também suas personalidades.
Em sites de ‘camming’ nacionais e estrangeiros, usuários compram créditos que permitem acessar diferentes tipos de chat – com taxas distintas também

Em sites de ‘camming’ nacionais e estrangeiros, usuários compram créditos que permitem acessar diferentes tipos de chat – com taxas distintas também

Na página dedicada a mulheres, uma delas enumera seus atributos: “Uma enfermeira, gamer, dominante, divertida, safada e kinky”. Outra: “Amo arte, cinema, literatura, rock ‘n roll e, obviamente, sexo selvagem”. Entre os homens, um é direto: “Sou ativo e dominador”. Outro: “Sou gaúcho, simpático, safado e do bem”.

Esse toque de realidade e amadorismo, em contraposição aos roteiros prontos e papéis clichês da indústria pornográfica tradicional, fazem do camming uma das tendências mais promissoras do mercado do sexo no mundo, segundo participantes e estudiosos do ramo.

No Brasil, o Câmera Privê tem cerca de 8 milhões de clientes cadastrados, dos quais 150 mil têm assiduidade mensal na compra de créditos que permitem serviços com preços variados, de shows exclusivos à possibilidade de controlar por meio de aplicativo um vibrador usado ao vivo pelos modelos. Todos os dias, a página recebe audiência de pelo menos 3 milhões de visitantes únicos.

Uma apresentação padrão costuma incluir striptease; a masturbação, muitas vezes com objetos; e daí para além, de sexo ao vivo aos mais diversos fetiches. Antes, porém, é comum que modelos e clientes conversem em chats, trocando informações por exemplo sobre hobbies, orientação sexual e preferências que podem conduzir a uma apresentação a partir dali.

Com as performances, os modelos fazem a renda do mês em um modelo comparável a aplicativos como o Uber e o 99. Como nas ferramentas de transporte, boa parte do que os profissionais arrecadam é repassada automaticamente para a empresa dona da plataforma.

No último mês, a BBC News Brasil conversou modelos que fazem apresentações eróticas e pornográficas na plataforma. Eles falaram sobre a rotina das transmissões, jornadas exaustivas de trabalho, assédio de clientes e a complexa relação com a família em virtude dessa “vida secreta” que aparece apenas na frente da webcam.

Por outro lado, também contaram como o serviço gerou dinheiro, prazer e confiança para se exibir a pessoas estranhas.

“Eu era enfermeira e estava passando por dificuldades financeiras”, conta Manuela, de 24 anos, há três conhecida como “Manuela Sweet” na internet. Hoje, ela ganha R$ 4 mil fazendo transmissões no Câmera Privê — além de publicar conteúdo em um portal próprio e em sites pornográficos tradicionais, como o Pornhub. “Dependendo do mês, consigo chegar a R$ 8 mil, mas isso não acontece sempre”, afirma.

Alice (nome fictício), também de 24 anos, conta uma história semelhante. Antes de virar camgirl em fevereiro de 2017, ela foi garçonete, operadora de telemarketing e vendedora de roupas em um shopping da sua cidade, no interior de São Paulo.

Não ganhava bem e os empregos eram sempre temporários. “Eu estava desempregada, precisando de dinheiro. Primeiramente, comecei a fazer cam porque era uma forma de ter uma renda rápida”, conta.

Mas seria injusto dizer que apenas problemas financeiros foram os motivos que levaram os modelos para o camming: segundo os relatos, há também certa curiosidade e prazer no jogo sexual dos chats. Manuela, por exemplo, diz que gosta do que faz. “No começo, foi um pouco difícil, porque eu nunca tinha me mostrado assim. Foi difícil aceitar que, na verdade, eu gostava de me expor.”

Já Alice conta que se sentiu bastante envergonhada nas primeiras transmissões, mas, com o tempo, passou a ter prazer com o novo trabalho. “Foi uma coisa que fui descobrindo aos poucos. Realmente comecei a gostar. Gosto de ser olhada, admirada”, diz.

Quando você precisa do dinheiro, faz qualquer coisa’

Como nos aplicativos de transporte, essa suposta liberdade na rotina, na verdade, pode se traduzir em tamanha autonomia que leva os cammers a fazer jornadas de trabalho muito longas e exaustivas. Jéssica conta que já chegou a atuar por 18 horas seguidas, diversas vezes. Ela usava o dinheiro para pagar o aluguel e a faculdade.

“Eu tinha uma meta de fazer R$ 100 por dia. Conseguia. Mas aí eu pensava: por que não ficar mais 30 minutos para chegar a R$ 150? Por que não mais uma hora para chegar a R$ 300? E assim vai… você vê a roleta girando e quer ganhar cada vez mais. Mas, quando percebe, passou o dia todo online”, explica.

Essa rotina exaustiva provocou alguns problemas de saúde, como feridas causadas pelo uso repetido de vibradores. “Me cortei algumas vezes e ficava constantemente assada”, conta.

Ela também relata efeitos psicológicos ruins, como surtos de raiva e ansiedade. “Eu lembrava que no dia seguinte tinha de pagar o aluguel ou outra conta, e minha sala de bate-papo vazia. Via outras garotas com vários clientes. Quando você precisa do dinheiro, faz qualquer coisa… Várias vezes eu tive surtos na frente de algum cliente, chorava”, conta.

O site brasileiro diz que não incentiva os modelos a ficarem muito tempo conectados. Segundo a empresa, a renda dos shows depende mais da capacidade do cammer de seduzir clientes e fazer chats lucrativos do que o período online.

Mas Lorena Caminhas, doutoranda em ciências sociais na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) cuja tese é sobre o camming no Brasil, avalia que o CP se coloca como “neutro”, no máximo um mediador de transações financeiras, no que diz respeito à proteção das modelos em diversos aspectos.

“O camming e outros trabalhos sexuais estão seguindo para esse modelo da plataforma, de Uber… Esses sites se colocam como uma empresa de mídia, uma plataforma de comunicação. Então (a visão) é: a pessoa vai ali voluntariamente, se inscreve e oferece um serviço”, diz Caminhas, que fez uma imersão nos chats e também entrevistas com dezenas de modelos mulheres para sua tese.

A pesquisadora lembra que, apesar de muitas modelos encararem a atividade como um trabalho, elas não têm qualquer direito trabalhista — como férias remuneradas ou licença.

“Em caso de doença, que foi algo que apareceu muito nas entrevistas, elas têm um prejuízo imenso, porque não ganham. E quanto mais tempo elas ficam fora do site, a imagem delas vai sendo perdida, porque as pessoas que estão online e disponíveis para fazer show ficam no topo (do site)”, exemplifica.