Shere Hite, a mulher que ‘chocou o mundo’ há 40 anos, perguntando a milhares de mulheres sobre o orgasmo

Por Edmilson Pereira - em 4 semanas atrás 83

Imagine uma mulher loira atraente com olhos azuis e batom vermelho na frente de uma máquina de escrever.

A imagem era de um anúncio com um slogan que dizia: “A máquina de escrever que é tão inteligente que ela não tem que ser.”

Quando a jovem modelo concordou em participar da propaganda, desconhecia que essa seria a mensagem.

Na verdade, ela pensou que havia sido selecionada porque “datilograva muito bem”, lembrou Joan Smith, escritora britânica e ativista de direitos humanos.

Mas, no momento em que a jovem modelo viu o anúncio, ficou indignada e não foi a única.

Integrantes da Organização Nacional de Mulheres dos Estados Unidos se reuniram em frente aos escritórios da empresa de publicidade em Nova York.

Ela se juntou ao grupo e protestou contra a propaganda que havia estrelado para pagar seus estudos de pós-graduação em História Social na Universidade de Columbia, em Nova York, uma das mais renomadas dos EUA.

Era a década de 1970 e a modelo em questão se chamava Shere Hite.

Anos depois, Hite acabaria se tornando uma heroína do feminismo e seu livro revolucionaria os conceitos sobre a sexualidade feminina.

A BBC News Mundo relembra sua história após sua morte no último dia 9 de setembro, aos 77 anos.

3.500 mulheres

Após o incidente do anúncio, Hite começou a participar de reuniões da Organização Nacional para Mulheres.

Em uma delas surgiu o tema orgasmo e uma das questões que gerou silêncio entre as participantes foi: todas as mulheres o experimentam?

Isso foi lembrado por Smith no artigo “Shere Hite: On female sexuality in the 21st century” (“Shere Hite: Sobre a sexualidade feminina no século 21”, em tradução livre para o português), publicado em 2006 no jornal britânico The Independent.

Alguém sugeriu a Hite que investigasse o assunto e ela aceitou o desafio.

Para isso, ela elaborou questionários sobre a vida sexual que foram respondidos, de forma anônima, por cerca de 3,5 mil mulheres nos Estados Unidos.

Não eram questões de múltipla escolha – as participantes podiam escrever abertamente sobre suas experiências sexuais.

Qual é a função do orgasmo feminino?

Assim nasceu o livro: “The Hite Report: Nationwide Study of Female Sexuality” (“O Relatório Hite: Um estudo nacional sobre Sexualidade Feminina”, em tradução livre para o português), que foi publicado em 1976 e que “quebrou tabus e escandalizou o mundo”, como Smith apontou.

A obra tornou-se um best-seller. Estima-se que 50 milhões de cópias foram vendidas em todo mundo.

“30 anos atrás, um livro de uma escritora americana desconhecida tomou o mundo de assalto. Sua autora, uma jovem estudante de graduação, havia desmascarado um dos grandes mitos sobre a sexualidade feminina: que a maioria das mulheres deveria ser capaz de atingir o orgasmo através da relação sexual”, escreveu Smith.

“Credibilidade”

Jack Halberstam, professora de Estudos de Gênero do Instituto de Pesquisa sobre Mulheres, Gênero e Sexualidade da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, lembra que o livro de Hite surgiu em um momento em que o movimento pelos direitos das mulheres nos Estados Unidos ganhava força e mudanças começavam a ser observadas na sociedade.

Muitas mulheres se organizaram, por exemplo, para falar sobre o aborto; outras sobre comunidades lésbicas e relações patriarcais.

“O ‘Relatório Hite’ foi muito importante porque deu uma espécie de credibilidade científica às afirmações que as mulheres, especialmente as brancas heterossexuais, estavam fazendo sobre profunda insatisfação com suas vidas domésticas e com o casamento heterossexual”, diz Halberstam à BBC News Mundo, o serviço de notícias em espanhol da BBC.

Segundo a especialista, as constatações do ‘Relatório Hite’ levaram a muitas discussões sobre a relação desigual de mulheres e homens no que diz respeito ao prazer em uma dinâmica heteronormativa, e “acho que uma das grandes revelações de sua obra foi que poucos mulheres relataram ter orgasmos” ao praticar sexo com penetração convencional.

É que mais de 70% das mulheres que participaram do estudo disseram que não conseguiam chegar ao orgasmo por meio do sexo com penetração e que precisavam de estimulação no clitóris para alcançá-lo.

Hite escreveu: “Os pesquisadores devem parar de dizer às mulheres o que elas devem sentir sexualmente e começar a perguntar como elas se sentem sexualmente”.

“Uma bomba”

Não é que o orgasmo feminino ou a sexualidade das mulheres não fossem temas discutidos antes, esclarece Halberstam.

Cada período da história teve uma narrativa diferente sobre o prazer feminino. Por exemplo, no século 16, este era considerado chave para a reprodução.

“Acreditava-se que uma mulher precisava ter um orgasmo para conceber um bebê. Porém, mais tarde, quando as pessoas perceberam que o orgasmo feminino não era necessário para a concepção, surgiu um novo conjunto de suposições sobre o prazer feminino que se fundiu com o estilo vitoriano”, diz Halberstam.

O que diferencia o livro de Hite é o contexto em que foi produzido.

“No cenário psicológico americano, a incapacidade de uma mulher de chegar ao clímax em um encontro heterossexual era entendida como seu fracasso, atribuído à sua frigidez ou talvez houvesse algo errado com ela fisicamente”, acrescenta Halberstam.

“Mas a obra de Hite mostrou que um grande número de mulheres não pode atingir facilmente o orgasmo em relacionamentos heterossexuais penetrativos. Essa foi uma grande bomba lançada sobre a sociedade americana.”

“Diria que foi um desafio para o ego masculino”, reflete a professora.

“Muitos homens pensavam que apenas estar lá levava as mulheres a paroxismos de alegria e prazer, mas estava muito claro que as mulheres relataram altos graus de insatisfação em suas vidas de casadas e isso foi impactante.”

Hite escreveu: “Muitos homens ainda parecem acreditar, de uma forma bastante ingênua e egocêntrica, que o que os faz se sentir bem é automaticamente o que faz as mulheres se sentirem bem.”

‘A verdadeira revolução sexual’

Jornalista, escritora e pesquisadora britânica, Julie Binder participa, desde 1979, de campanhas de combate à violência contra mulheres e meninas.

Para ela, foi Hite quem, de muitas maneiras, “deu início à verdadeira revolução sexual para as mulheres”.

“Embora a revolução sexual dos anos 1960 tenha popularizado a pílula anticoncepcional, o que obviamente significou que as mulheres puderam evitar uma gravidez indesejada, e isso gerou um impacto enorme na vida delas, os homens saíram mais beneficiados desse processo, porque tiveram acesso desenfreado às mulheres”, argumenta Bindel.

“Por meio do estudo de Shere, ficamos sabendo que muitas mulheres, que usavam o risco de engravidar como desculpa para evitar o sexo com penetração, passaram a achá-lo doloroso, desagradável e nem um pouco estimulante”, acrescenta Bindel.

Quando Hite realizou seu estudo, percebeu que havia sexólogos homens que tendiam a analisar a sexualidade feminina sob uma perspectiva masculina.

“Eles achavam que se a mulher não gostava de penetração era porque ela tinha um problema, que poderia ser psicológico ou físico e que talvez justificasse o uso de um medicamento ou cirurgia”, diz Bindel.

Hite argumentou que isso não fazia sentido e que para as mulheres desfrutarem da sexualidade, deviam ter uma excitação sexual adequada.

“Dizia que a penetração não excitava as mulheres e que isso incomodava terrivelmente algumas pessoas”, explicou Hite ao jornal britânico The Guardian em uma entrevista em 2011.