ELEIÇÕES 2020: Dividido e ampliado, bolsonarimo se espalha por 19 partidos no pleito deste ano

Por Edmilson Pereira - em 2 meses atrás 96

A lista é formada por Avante, Cidadania, DEM, DC, MDB, Novo, Patriota, PL, Podemos, PP, PROS, PRTB, PSC, PSD, PSDB, PSL, PTB, Republicanos e Solidariedade. O Brasil tem 33 partidos registrados, ou seja, 58% terão pelo menos alguma candidatura alinhada ao governo federal.

“O bolsonarismo não é um fenômeno partidário, por isso tem gente identificada em vários lugares. É um fenômeno político com enraizamento social mais profundo em termos de valores e crenças, ligado a uma parcela forte da sociedade”, afirma o cientista político Cláudio Couto, da Fundação Getulio Vargas (FGV). “Mas se identificar também é uma maneira de se beneficiar da alta recente na popularidade de Bolsonaro, para obter voto. Isso aconteceria qualquer que fosse o presidente.”

A dispersão reflete dois movimentos distintos na base de apoio do presidente Bolsonaro: um de divisão, após brigas políticas entre bolsonaristas a nível local ou regional; outro de ampliação, a partir da aliança firmada pelo governo com líderes do centrão —o grupo de partidos que inclui PP, PSD, PL, PTB, PROS, Avante e Solidariedade e tradicionalmente troca apoio por verbas e indicação de cargos na máquina federal.

Após o divórcio do PSL, em novembro de 2019, o projeto bolsonarista era criar sua sonhada legenda própria, o Aliança pelo Brasil. Longe de obter as necessárias 492 mil assinaturas de eleitores em nove estados para formalizar o novo partido na Justiça Eleitoral (até agora só alcançou 6% disso), o presidente indicou aos apoiadores que buscassem abrigo em outras legendas para as eleições de 2020.

“Bolsonaro não faz questão de coordenar o bolsonarismo, que é parte de uma onda conservadora maior. Não coordena alianças locais como o PT fazia. Sua única prioridade é se manter no governo. Aí as pessoas surfam na onda, dizem que são amigas dele”, explica o cientista político Humberto Dantas, do Centro de Liderança Pública (CLP).

O principal destino, ou “barriga de aluguel” como chamam até políticos bolsonaristas, é o Republicanos (ex-PRB). O partido criado em 2005 para servir de plataforma política à Igreja Universal do Reino de Deus recebeu em março as filiações de dois filhos do presidente, o senador Flávio e o vereador Carlos, além da mãe deles, Rogéria Bolsonaro. Desde então, o número de filiados saltou de 424 mil para 478 mil.

Quase dez anos depois de se abrir para não integrantes da Universal, o Republicanos colou sua imagem na de Bolsonaro, começando pelas duas maiores cidades do país.

Em São Paulo, onde o cisma no PSL resultou no boicote à candidatura da deputada federal Joice Hasselmann, ainda rompida com a família Bolsonaro, o escolhido foi o deputado federal Celso Russomanno. Amigo do presidente, com quem troca mensagens de WhatsApp, o apresentador da TV Record já recebeu duas manifestações públicas de apoio. Bolsonaro publicou em suas redes sociais um vídeo em que Russomanno defende o governo no caso do aumento do arroz, elogiando o deputado pelo que chamou de “aula de humildade e conhecimento”.

Posteriormente, o presidente declarou em live que pode abandonar sua posição oficial de não apoiar candidatos no primeiro turno das eleições em ao menos três cidades: São Paulo, Santos e Manaus.

“Se chegar um ponto tal e eu achar que posso influenciar nas eleições nestas três cidades, eu vou manifestar porque acho que este candidato nosso, em chegando, tem tudo para fazer um bom mandato para o bem de São Paulo, de Santos ou de Manaus”, disse.

Bolsonaro não citou o Rio de Janeiro, onde o prefeito e candidato à reeleição Marcelo Crivella (Republicanos) participou de inaugurações e divulgou vídeos ao lado do presidente, que mantém apoio velado.

Para Humberto Dantas, não há interesse de Bolsonaro em se associar diretamente à candidatura de Crivella para não se indispor mais com Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados. Maia trabalha pela eleição do ex-prefeito Eduardo Paes (DEM), líder nas pesquisas.

“As estratégias eleitorais nas megacidades como Rio e São Paulo passam por Brasília. A prioridade de Bolsonaro é não enfrentar Maia e comprometer sua já frágil governabilidade.”

Mas Crivella conta com a participação de Flávio e Carlos Bolsonaro na campanha, ameaçada por decisão do TRE-RJ que declarou o prefeito inelegível —ainda cabe recurso. Caso ele não possa concorrer, uma opção é o ex-nadador e deputado federal Luiz Lima (PSL), que vem recebendo apoio de parlamentares bolsonaristas no Congresso.

A aproximação da família presidencial levou o Republicanos a também conquistar o apoio bolsonarista nas eleições em cidades do interior do Rio. Em Nova Iguaçu, por exemplo, o nome escolhido é o da deputada federal Rosângela Mendonça, da Igreja Universal. Mas em São Gonçalo, maior colégio eleitoral do interior fluminense, o acordo para receber nomes que pretendiam se filiar ao Aliança pelo Brasil foi com o PSD, que lançou para prefeito o ex-deputado federal Roberto Sales.

Em Manaus, uma das três cidades citadas por Bolsonaro, o Republicanos tem como candidato o deputado federal Capitão Alberto Neto. Depois de divulgar vídeos com o presidente, ele aposta na vinculação ao bolsonarismo para crescer nas pesquisas, embora o presidente tenha manifestado mais simpatia pelo coronel reformado do Exército Alfredo Menezes (Patriota).

Outros candidatos pelo Republicanos aliados do bolsonarismo são os deputados federais Lafayette Andrada (Belo Horizonte) e Vavá Martins (Belém). Também alinhados são o delegado e deputado estadual Lorenzo Pazolini (Vitória) –que integrou a comitiva organizada pela ministra Damares Alves para tentar impedir o aborto legal de uma menina de 10 anos na cidade São Mateus (ES)– e o empresário Gil Barison (Palmas), fiel seguidor de Bolsonaro que se acertou com o Republicanos depois de ser cortejado pelo PSL do Tocantins.

Em Belo Horizonte, o deputado estadual Bruno Engler, “bolsonarista raiz” e um dos fundadores do movimento Direita Minas, sai candidato pelo PRTB do vice-presidente Hamilton Mourão com apoio da família Bolsonaro. Mas disputa o potencial eleitorado bolsonarista da cidade —onde o presidente teve 65% dos votos em 2018— com Andrada e Rodrigo Paiva (Novo), nome do governador Romeu Zema. Por enquanto, nenhum decolou ao ponto de ameaçar o favoritismo do prefeito centrista Alexandre Kalil (PSD).

Rachas dividem, mas alianças ampliam apoio a Bolsonaro

Em várias cidades, brigas e articulações políticas transformaram bolsonaristas em adversários nestas eleições. Em Aracaju, o campo se dividiu em quatro nomes: Danielle Garcia (Cidadania), delegada que integrou a equipe do ex-ministro Sergio Moro; Georlize Teles (DEM), também delegada apoiada pelo empresário bolsonarista João Tarantella; Rodrigo Valadares (PTB), deputado estadual que chegou a liderar o PSL sergipano; e o publicitário Lúcio Flávio (Avante). Todos, antes de disputar os votos, disputam o posto de representante de Bolsonaro na capital sergipana.

Casos assim costumam resultar em um problema matemático. “Há uma divisão de votos e todos morrem abraçados”, diz o cientista político Cláudio Couto.

Racha parecido ocorreu no Rio Grande do Sul. Em Porto Alegre, onde a esquerda lidera as pesquisas com Manuela D’Ávila (PCdoB), políticos que andavam unidos no PSL sob a bandeira do bolsonarismo agora vão pedir votos para candidatos de outros partidos.

Os mais competitivos são o ex-vice-prefeito Sebastião Melo (MDB), apoiado pelo deputado federal bolsonarista Bibo Nunes (PSL), e o ex-prefeito José Fortunati (PTB), cuja coligação abriu as portas para a empresária Carmen Flores (PSC). Candidata de Bolsonaro ao Senado em 2018, ela deixou o PSL após Bibo Nunes denunciar repasses irregulares em sua campanha, mas continua uma apoiadora fiel do presidente.

Se por um lado o leque maior de partidos com aliados do presidente Bolsonaro resulta de brigas políticas entre os próprios bolsonaristas, por outro também demonstra a adesão das legendas do centrão ao Palácio do Planalto.

Isso é mais evidente no Nordeste, região onde o bolsonarismo mais costurou novas alianças. No Maranhão, seu representante na disputa pela Prefeitura de São Luís é o deputado federal Eduardo Braide (Podemos), que desafia a concertação do governador Flávio Dino (PCdoB), um dos maiores adversários de Bolsonaro na esquerda.

Já em Fortaleza, no Ceará, o candidato bolsonarista é o deputado federal Capitão Wagner (PROS), ex-PM que ascendeu politicamente após liderar um motim da Polícia Militar no fim de 2011 e início de 2012. Ele tenta tirar a capital cearense da esfera de influência de outro grande crítico de Bolsonaro, o ex-candidato a presidente Ciro Gomes (PDT).

O PP, outra sigla do centrão, chega com apoio do governo Bolsonaro para as eleições nas capitais de Alagoas e da Paraíba. Em Maceió, o candidato é o deputado estadual Davi Davino, afilhado político do deputado federal Arthur Lira, um dos responsáveis pelo alinhamento do partido ao núcleo do bolsonarismo. Em João Pessoa, encabeça a chapa do PP à prefeitura o ex-prefeito Cícero Lucena, que já admitiu ser eleitor de Bolsonaro.O presidente nacional do partido, senador piauiense Ciro Nogueira, tem sintonia cada vez maior com o presidente, ao ponto de ter ganhado o apelido de “Zero Cinco” em referência ao modo como Bolsonaro chama os filhos. No Piauí, Nogueira indicou o vice da candidatura de Kleber Montezuma (PSDB), deixando o bolsonarismo perto do ninho tucano em Teresina, onde o candidato natural do governo federal seria o Major Diego Melo (Patriota).

Não é o único caso de apoio bolsonarista a um nome do PSDB nas eleições 2020. Em Roraima, o governador Antonio Denarium, aliado de Bolsonaro eleito pelo PSL, apadrinhou a candidatura da deputada federal tucana Shéridan Oliveira à Prefeitura de Boa Vista. A articulação sugere que a oposição a Bolsonaro feita pelo governador de São Paulo, João Doria (PSDB), um provável rival na próxima disputa presidencial, ainda não influencia as alianças eleitorais pelo Brasil.

Segundo a imprensa local, o acordo prevê o apoio do grupo de Shéridan à reeleição de Denarium em 2022. Atualmente sem partido, o governador de Roraima aguarda a criação do Aliança pelo Brasil.

Fonte: Paraíba Notícia e Uol